Fotografia

Nossa fotografia, aquela, na parede
com o mar ao fundo
está em movimento.

O mar agitado prenunciando tempestades
balança o barco
e seus cabelos esvoaçam ao vento.

Seus olhos, a cada noite, ficam maiores
e o cigarro que tenho na mão diminui
a cada dia.

Sua barriga cresce, a filha se anuncia
o mar muda suas cores
o meu cabelo embranquece.

Aquela fotografia vive os dias,
o barco parece à deriva
distancia-se da terra.

Distantes vamos ficando:
um do outro
e do mundo.

Mas a fotografia é vida
estamos mergulhados nela
no meio do oceano imenso.

Meu rosto procura uma ilha
o seu procura galáxias
nós dois estamos sem rumo.

Nossa fotografia resiste
ao sol, à chuva, ao frio
aos anos que ela existe.

Juntos, parecemos tristes
às vezes damos um sorriso
que alguém de longe assiste.

Mas valha o seu movimento
somos nós e nossas vidas
no mais esmerado momento.
Eunápolis/Ba-19Fevereiro1999/14:50hs

Antonio Medeiro

Longe

Longe, no sul
os meninos sonham
os meninos choram
os meninos esperam
mãos naturais
que lhes afaguem o rosto
que lhes penteiem os cabelos
façam ninar.

Os meninos sonham.

Sonhem, meninos!
Que pelo vento os sonhos
tornam-se mãos de tocar
tornam-se gestos pequenos
tornam-se restos de pais
que estarão velando
pela noite escura
os seus olhinhos de mar..
recife/pe-maio1985

Antonio Medeiro

Submersão profunda

Poemas adolescentes

Submerso no quadro da janela
nem sonha e já se esquece
que a noite é fria
e nela adormece
a dor encarapuçada
emersa do dia.

Fuma, olhos parados
pensamento estático:
o ser, a estátua grega
estátua apática
no horizonte negro
que infinita a noite.

Recua: passos compassados
de ré pro quarto
de frente pra vida
dentro do submundo
a mágoa sentida
agora vencida
pela quietude profunda
desta escuridão arisca..
guaranésia/mg-julho1975

Antonio Medeiro

Entre 4 paredes

Poemas adolescentes

Psiu!
Entre quatro paredes
em cima do buraco
o poeta escreve:
só se ouve o baque n’água.

Três aparelhos excretores trabalham
juntos
harmoniosamente
penosamente
vagarosamente.

A cabeça:
pensamento.
A caneta:
tinta.
O terceiro?
Ah, o terceiro o poeta não fala!
Os leitores ficariam vermelhos
e criticariam nossa censura federal.

O outro excreta a sensibilidade do poeta
em relação ao mundo.

Psiu!
O poeta vai puxar a alavanca
que levará o mundo até o Rio Tietê.
São Paulo/Sp-25Setembro1974

Antonio Medeiro

Que coisa!

Poemas adolescentes

Dizer que já te amei!
Loucura, desespero, paixão.

O que aconteceu com o amor
aquele que eu tinha na mão?

Fugiu pelos vãos dos dedos
entendeu seu coração?

Fechou o círculo do tempo
se transformou em ilusão?

Que coisa!
Eu que tanto te amei
nem sei seu nome mais não.
guaranésia,mg-1974

Antonio Medeiro

Rei de tudo

Rei de ouro
rei de pau
rei de ferro
rei de espadas
repara naquele menino
sentado na imensa escada:
não tem pai
não tem rei
não tem patrão
tem nos olhos esfomeados
o triste jeito do cão
tem na boca desdentada
o amargo gosto do pão.

Rei de prata
rei de pedra
rei de terra
rei de facas
repara naquele velho
sentado na imensa escada:
não tem casa
não tem mulher
não tem razão
tem nos gestos adoentados
uma vida toda em vão
e tem nas mãos calejadas
a triste marca do não.

Rei de lata
rei de folha
rei de pó
rei de metralhas
repara naquelas vidas
sentadas na imensa escada:
não têm força
não têm cova
não têm pão
têm nas vidas abandonadas
a marca da tua mão
e trazem atado às costas
o peso dos que não são.
cássia/mg-fevereiro1979

Antonio Medeiro